Preconceitos marcam adoção voluntária

“O fato de que toda mulher nasceu para ser mãe é o mito do amor materno criado e imposto pela sociedade. As mulheres que não se encaixam nesse perfil sofrem preconceito, e são esses pré-conceitos que reforçam a entrega inadequada e até o abandono da criança”, declarou a doutoranda em Psicologia Clínica, Karla Luna de Menezes, nesta sexta-feira, 24, durante o seminário: “A entrega voluntária de crianças para a adoção e o trabalho em rede”, no Fórum Cível de Belém. O evento foi promovido pela Coordenadoria Estadual da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Pará (CEIJ/TJPA).
Karla apresentou um de seus estudos sobre o tema que mostra os motivos e sentimentos da doação voluntária. “Percebemos que existem motivos conscientes, que são os que as mães revelam, como não ter condições socioeconômica e familiar; e os motivos inconscientes, aqueles que estão por trás do discurso, como dependência emocional e psíquica. Karla citou como exemplo da sua pesquisa uma mulher que entregou seu filho para adoção porque não recebeu da sua mãe amor materno. “O sentimento de abandono é reproduzido e impede a mulher de exercer a maternidade”, explicou.
Durante o evento, o desembargador José Maria Teixeira do Rosário, coordenador da CEIJ, disse que é importante que as crianças entregues sejam adotadas pelos inscritos no cadastro nacional ou pela família extensiva amparadas pela legalidade. “As mães que querem entregar uma criança para adoção devem procurar a Vara da Infância que serão acolhidas pela equipe multidisciplinar para ter o poio psicológico e emocional”. O magistrado destacou ainda os desafios da adoção. “Adolescentes sofrem dificuldades para serem adotadas. As famílias preferem crianças de 0 a 6 anos de idade e sem muitos problemas”, disse. 
O objetivo do evento é garantir o direito da criança a um desenvolvimento saudável, fortalecendo a Rede para receber a adoção voluntária sem pré-conceitos e com todo o respeito à decisão da mãe, explicou o juiz da 1ª Vara da Infância e Juventude e juiz auxiliar da Corregedoria do TJPA, João Augusto de Oliveira. Com essa perspectiva, a palestrante Luanna Tomaz de Souza, doutora em direito e conselheira da OAB/Pará, considerou a pressão social que a mulher vive. “A mulher tem um conjunto de responsabilidades enlouquecedoras. Ela é vista como a responsável por manter a sagrada família e a estabilidade do lar. Por tanta pressão acabam adoecendo, por isso temos que respeitar a mulher que não quer passar por isso, que não tem condições financeiras, nem psicológicas de assumir esse ideal imposto pela sociedade. A Rede precisa entender e ajudar”, declarou Luanna.
Também participaram da mesa de debates a pós doutora em ciência da reabilitação, Simone Souza da Costa; e a doutora em educação Adriana Raquel Santana. O Seminário foi transmitido ao vivo pela internet, no Portal do TJPA. Estiveram presentes no evento representantes do Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, Conselheiros Tutelares, Escola de Conselhos, diretores e servidores da área da saúde e da assistência social do Estado do Pará e entidades de classe.   

Fonte: Coordenadoria de Imprensa
 Texto: Nara Pessoa
 Foto: Nara Pessoa/TJPA /