Mulheres falam das alegrias e desafios de adotar uma criança


Assim que a porta se abre na casa de Adriana Parreira, na Ilha do Governador, os meninos Davi, de 10 anos, e Júlia, de 6, vêm correndo receber os visitantes. Embaixo dos braços, trazem orgulhosos os álbuns que reúnem fotografias deles desde antes de formularem uma memória propriamente dita. “Foi presente da mamãe”, contam os dois entre sorrisos.
O mimo foi o primeiro que Adriana deu a Davi, quando ele já tinha 5 anos de idade. Sem mais contato com os pais biológicos e vivendo em um abrigo, quis o destino que o caminho do menino cruzasse com o da jornalista, em 2011, enquanto a futura mamãe realizava um trabalho voluntário no Lar Divina Luz, na Ilha do Governador.
— Integro um grupo espírita que faz caravanas a orfanatos. Nós frequentávamos um orfanato na Ilha que fechou e me pediram para procurar outro. Foi quando chegamos ao lar onde o Davi estava. Na primeira vez que nós nos vimos, ele já chamou a mim e ao meu marido (o biomédico Caio Ramasine) de mãe e pai e perguntou se poderíamos trazê-lo para casa — relembra Adriana.
— Esta foto aqui é de quando a minha mãe fez uma festa para mim ainda no abrigo onde eu morava — conta Davi, mostrando uma imagem em que aparece ao lado de Adriana, cantando “Parabéns a você”.
— Aqui foi quando minha mãe brincou comigo e eu ainda era bem pequenininha — conta Júlia.
Apesar de conhecer a menina desde que ela mal balbuciava, a adoção demorou um pouco mais a acontecer. Ela ainda era um bebê quando Adriana e Caio faziam as primeiras brincadeiras com seu irmão biológico, o Davi. Por isso a Justiça impedia o contato entre a menina e aqueles que seriam seus pais. No entanto, assim como aconteceu com o menino, a identificação entre eles foi forte e imediata.
— A primeira vez que nós a vimos foi em uma festa de Natal. Quando a coloquei no colo, ela se enganchou em mim. Em todas as fotos daquele dia, ela aparece colada em mim, na minha cintura. Foi um grude — lembra Adriana.
Casados há oito anos na época, Adriana e Caio buscavam uma gravidez. Vários métodos foram tentados sem atingir o objetivo desejado. Até que, após acompanhar o sofrimento da mãe (injeções, remédios e frustrações), Mariana, filha de uma união anterior de Adriana, sugeriu que iniciassem um processo de adoção.
— A Mariana virou um dia e falou “Por que vocês não param com isso? Por que não adotam uma criança? É muito mais simples”. Foi neste momento que veio o clique e resolvemos correr atrás de toda a papelada — conta.
O momento mais tenso aconteceu quando os irmãos foram transferidos de abrigo, o que jogou o processo, que já estava em andamento, para outra vara judicial (os documentos saíram do Centro para Madureira). Na nova jurisdição, foram informados de que a prioridade para eles adotarem as crianças era apenas na Vara do Centro. Em Madureira, voltariam para o fim da fila.
— Ficamos desesperados. Quando conseguimos rever os meninos, eles vieram gritando: “Mãe! Pai!”. Aí foi uma questão de aguardar. A própria assistente social do novo abrigo fez um parecer positivo solicitando à juíza que pudéssemos ficar com as crianças — recorda Adriana. — Essas duas figurinhas se tornaram os maiores presentes que nós recebemos na vida.
Uma outra Adriana, também moradora da Ilha, prova que a adoção pode ser mágica para os filhos e para os pais. Quando o desejo de ter filhos aflorou no dia a dia do casal Adriana César de Brito e Sérgio Cavalcante, a realidade se mostrou mais dura que a expectativa. A turismóloga chegou a fazer intervenções cirúrgicas para tentar engravidar, mas não obteve resultado. Até que um dia Sérgio, um professor de música, deu aulas a uma criança que havia sido adotada.
— Cada mulher tem uma necessidade. Tem aquela coisa de ver a barriga crescer, da amamentação. Mas quando o Mateus chegou, percebi que só o que eu queria era ser mãe. O Mateus nasce a cada dia. Nasce a cada coisa nova que a gente ensina — avalia.
Filho de mãe soropositiva, Mateus, aos 18 meses, recebeu o resultado negativo para o teste de detecção do HIV. Hoje, aos 4 anos, o menino já toca as primeiras notas no piano de Sérgio. “Ainda é cedo para saber se ele vai gostar de música”, observa o pai coruja.