Sonhos

Esse lance de criar sonhos em detalhes sofisticados é atividade da mente adulta.
Nós, adultos, é que sonhamos com uma casa estilo colonial no campo com decoração cottage, um chalé estilo germânico nas montanhas ou uma casa de praia, de frente para o mar e com redes na varanda.
Nós é que sonhamos com cortinas rendadas, almofadas em tecido adamascado, carro automático e viagens na primeira classe para a Europa.
Nós é que sonhamos com um corpo perfeito, uma pele sem rugas, músculos definidos e tonificados e celular de última geração. Somos merecedores, oras !!
Não é isso que dizem os livros de autoajuda?  Você merece. Você pode.
E eu creio realmente que a gente pode e merece.
Só o que a gente não pode é transformar esses devaneios em condição indispensável à felicidade.

Com as crianças, não é assim. Ainda bem!
E se falamos de crianças que vivem abrigadas, então a lista dos desejos delas é incrivelmente reduzida.
O único sonho de uma criança que vive abrigada é ter a chance de encontrar uma família.
Mais nada....
Junto a esse sonho, podem vir outros de pequena monta: ganhar uma bicicleta no Natal, ter um cachorrinho, ter uma Barbie ou a tal baby alive, que está na moda.
E se nada disso vier, a criança que hoje nada tem, ficará bastante satisfeita com um abraço, um cafuné ou um picolé.

Mas...e se fosse diferente?
E se as crianças pensassem como nós, e a elas fosse dado o direito, como nos é dado, de traçar o perfil da família com a qual elas sonham?
Vocês já pensaram nisso? Eu já. 
Por isso decidi escrever esse texto, imaginando uma menina de 5 anos estabelecendo o perfil da família que deseja. Para tanto, utilizarei como critério tão somente o que eu li no ano de 2016, em grupos de apoio, sobre os sonhos e expectativas dos adultos em relação às crianças que eles sonham encontrar. Estão prontos ? 

Imagino a psicóloga de uma Vara da Infância e da Juventude qualquer entrevistando Ana Maria, nome fictício de uma menina branca, bonita, totalmente saudável e sem irmãos, apta à adoção, frente a uma lista de milhares de candidatos interessados nela.

Psicóloga: - Então, Ana Maria, que família você escolhe? Me conte o seu sonho e eu vou excluindo do cadastro as inscrições de quem não se enquadra, para você escolher depois entre os que sobrarem e serão exatamente o perfil dos seus sonhos. Vamos começar?

Ana Maria - Eu quero ser adotada por um casal . Quero ter um pai e uma mãe. Pode excluir os nomes de todos os candidatos solteiros, viúvos, divorciados e também os casais homoafetivos;

- Quero também que meus pais ganhem mais de 10 salários mínimos por mês, porque eu quero conhecer a Disney, o Beto Carrero World, o Beach Park e ganhar todos os brinquedos que eu achar bonitos e desejar. 

- Quero ser filha única!

- Quero ter pais totalmente saudáveis, pois não tenho estrutura para lidar com pessoas doentes, em tratamentos médicos longos, ou que possam vir a desenvolver Alzheimer e outras doenças incapacitantes no futuro. Eu não aguento...
 
- Quero que meus pais tenham no máximo 35 anos; mais do que isso já serão velhos e trarão muitos vícios de suas experiências de vida e eu acho complicado ter que lidar com isso, já que eu não tenho culpa nenhuma das desilusões amorosas que eles viveram no passado, não fui responsável pelos traumas de infância deles, não fui eu que fiz eles gastarem todo o seu dinheiro em tentativas de fertilização que não deram certo, e não gosto de gente carente. 

- Quero que meu pai fale pelo menos mais um idioma além do português; afinal de contas hoje em dia até as escolinhas infantis são bilíngues e eu não quero passar vergonha na frente dos meus amigos;

- Quero que minha mãe seja uma pessoa muito inteligente! Que tenha curso superior e capacidade de aprender rápido porque eu vou utilizar novas tecnologias e preciso que ela me ensine; para tanto, ela precisa saber.

- Quero que meus pais tenham a mesma cor que eu, para não ter que ficar explicando no clube, na igreja ou na escola a todo momento porque nós somos diferentes;

- Quero que meus pais sejam bem educados e tranquilos. Que não me interrompam quando eu estiver brincando, que não gritem comigo, não percam a paciência, mantenham sempre a elegância e jamais me batam.

- Quero que minha mãe se chame Catarina. Eu sempre sonhei em ter uma mãe chamada Catarina. Se ela não tiver esse nome, espero que o Juiz autorize a mudança, porque isso é importante para mim e eu faço questão.

- Vou conviver com meus novos pais durante alguns meses; se eles não corresponderem à minha expectativa, posso devolvê-los e fazer nova busca na lista de habilitados ?

E aí está, sem retoques, um retrato das expectativas de grande parte dos candidatos à adoção no Brasil.
Eu com certeza não sou a mãe com a qual Ana Maria sonha, e teria sido eliminada já no primeiro requisito, além de não preencher outros tantos. 
E você? Continua na lista do perfil dos sonhos de Ana Maria?

Um grande abraço, e boa semana a todos. 
Shirley Machado"