Quando o acolhimento gera mudança

Por: Marcionila Teixeira - Diário de Pernambuco
Publicado em: 31/07/2016


Genaquitan Brasil, 38 anos, foi entregue pela mãe a uma nova família ainda na maternidade. Hoje, homem adulto, assume outro papel. Na dinâmica dos encontros imprevisíveis proporcionados pela vida, agora acolhe. Termina, assim, novamente acolhido. Seus quatro “filhos”, conta, não saíram de seu ser. Mas é como se assim fosse. Os irmãos Sara, 10, Abraão, 13, Levi, 14, e Mateus, 16, ainda estão em um abrigo. Um dia, se tudo der certo com o processo na Justiça, partem definitivamente para a casa de Genaquitan, conselheiro tutelar de Jaboatão dos Guararapes. Quando isso acontecer, o apadrinhamento será transformado em adoção. A palavra “painho”, como as crianças costumam chamar o padrinho, ganhará um caráter mais definitivo.

O apadrinhamento de crianças e adolescentes de instituições de acolhimento, antes restrito a cinco comarcas do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), foi ampliado para todo o estado através do programa Pernambuco que acolhe. A iniciativa é da Coordenadoria da Infância e Juventude do Estado (CIJ), através da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja-PE). Desde o lançamento, no último dia 14, 50 pessoas de várias cidades já se inscreveram como candidatas ao apadrinhamento.

Dessas, cinco foram ouvidas na Ceja, na Avenida Fernandes Vieira, na Boa Vista. Duas ofertaram apadrinhamento profissional e três, afetivo. “No caso do profissional, uma psicóloga ofereceu atendimento gratuito a cinco crianças e adolescentes e uma advogada colocou-se à disposição para ajudar nos processos. Dos três candidatos a padrinhos afetivos, uma pessoa já conheceu o afilhado”, explicou Teresa Figueirêdo, psicóloga da Ceja.

A iniciativa prevê três formas de participação na vida dos meninos e meninas. No apadrinhamento afetivo, são criados vínculos além da instituição, com promoção de visitas, passeios no final de semana e participação das crianças e adolescentes em comemorações especiais. No apadrinhamento provedor, a ideia é custear a qualificação pessoal e profissional dos acolhidos, com oferta de escola, cursos e prática de esportes. Nessa categoria, ainda é possível contribuir com a melhoria nas condições estruturais das instituições de acolhimento. No apadrinhamento profissional, a criança poderá ter acesso a cursos ou serviços de acordo com o trabalho do padrinho.

O apadrinhamento, esclarece Teresa Figueirêdo, é direcionado a crianças maiores de 10 anos ou com problemas de saúde, pois esse é o público com menos chances de ganhar uma família substituta. A ação também visa minimizar o número reduzido de técnicos e cuidadores e da falta de estrutura física nas casas de acolhida. “Nos abrigos, as crianças ficam limitadas apenas à realidade da instituição, não tendo consciência da vida real e social. Na maioria das vezes, não sabem o que é família, ou a lembrança que conservam, e que mais se aproxima do conceito de família, é uma história de abandono e sofrimento. Ao completarem a maioridade, ficam sem perspectivas de um futuro melhor. Dentro desse contexto, o vínculo do apadrinhamento poderá proporcionar a essas crianças e adolescentes a oportunidade de quebrarem o ciclo da exclusão e da invisibilidade social e possibilitar a construção de uma base mais sólida de cidadania”, observa a psicóloga.

Cadastro
Para se cadastrar como candidato ao apadrinhamento, a pessoa se inscreve no site do Tribunal de Justiça de Pernambuco (www.tjpe.jus.br). É preciso informar os dados pessoais ou empresariais, sua localidade e o tipo de apadrinhamento desejado. Após o preenchimento, a Ceja entra em contato informando a comarca, a data e o horário de apresentação com a documentação ncessária para a realização da entrevista.

Se o interesse é por apadrinhamento afetivo e profissional, é feito, ainda, um estudo psicossocial e pedagógico com os candidatos por parte da equipe da Ceja. Também há possibilidade de pedido de complementação de documentos e agendamento de estudo psicossocial e pedagógico na residência dos padrinhos afetivos.

A iniciativa já funcionava através do Estrela guia, da 2ª Vara da Infância e Juventude do Recife; do Anjo da guarda, da Vara da Infância e Juventude de Jaboatão dos Guararapes; do Anjos de Olinda, da Vara da Infância e Juventude de Olinda; do Mãos que cuidam, da Vara da Infância e Juventude de Vitória de Santo Antão; e do Acolhida cidadã, da Vara da Infância e Juventude de Petrolina.

Juliana Lucena, 25 anos, é estudante de direito, e decidiu apadrinhar uma adolescente de 15 anos, Marcela, após uma matéria veiculada no Diario. A relação entre as duas amadureceu a ponto de não conseguirem ficar distantes uma da outra nos finais de semana. Viraram melhores amigas.

“Muitos preferem crianças mais novas, pois têm a impressão de que vão moldá-las do seu jeito. Adolescentes normalmente são mais difíceis. Talvez pelo fato de ser o período que mais precisam de alguém. De uma mãe, uma amiga, alguém disposto a dar carinho e atenção. Eles já têm a personalidade formada, mas é gratificante ver como eles se transformam em um ambiente de carinho e atenção. O bem que faço a ela, é o mesmo que ela faz a mim”, reflete Juliana. Como diz a estudante de direito, faz bem fazer o bem.