Reflexões Acerca da Adoção na Perspectiva Analítica

Alguns fatores, relacionados em torno do processo de adoção, acompanham tanto os pais adotivos quanto os filhos adotados, além da família e sociedade que os envolve. Tendo como referencial teórico a psicologia analítica, este trabalho visa refletir de que forma a adoção pode constituir-se num decurso de integração da sombra e consequente influência no processo de individuação dos pais. O presente artigo intenciona articular escritos publicados sobre adoção, sombra e processo de individuação, visando suscitar reflexões acerca do tema em todas as pessoas que se interessam em compreender de que forma a adoção pode emergir conscientemente elaborada a partir da integração da sombra, o que influenciará no processo de individuação dos pais adotantes, dentro da perspectiva analítica, bem como analisar os motivos que influenciaram na escolha pela adoção, refletir sobre a transição para a maternidade e paternidade no processo de adoção e estudar as mudanças sociais e psíquicas observadas nos pais adotantes decorrentes da adoção, além de trazer contribuições no sentido de auxiliar familiares e profissionais envolvidos com a adoção. Os dados coletados foram obtidos através de entrevista com um casal adotante. Pretende-se a partir da fundamentação analítica, contribuir a respeito dessas reflexões, revelando inclusive a carência de artigos relacionados e a necessidade dos profissionais dessa abordagem em produzir escritos que tratem do tema em questão.
Palavras-chave: adoção, psicologia analítica, sombra, processo de individuação.

Introdução

Vários mitos gerados em torno do processo de adoção acompanham tanto os pais adotivos quanto os filhos adotados, além da família e sociedade que os envolve. Todo ser humano vivencia algum tipo de conflito, sendo este constitutivo da sua formação, mas o que interessa neste trabalho é refletir de que forma a adoção pode constituir-se num decurso de integração da sombra e consequente influência no processo de individuação dos pais, segundo o referencial teórico da psicologia analítica.
Levinzon (2005) a partir de relatos dos pais e da sua experiência clínica traz diferentes motivos pelos quais as pessoas buscam a adoção. São eles: o contato com uma criança que desperta o desejo da maternidade ou paternidade, o desejo de ter filhos quando já se passou da idade em que isto é possível biologicamente, a esterilidade de um ou ambos os pais; a morte anterior de um filho, o desejo de ter filhos sem ter de passar por um processo de gravidez, por medo deste processo ou até por razões estéticas, o parentesco com os pais biológicos que não possuem condições de cuidar da criança, as idéias filantrópicas, o anseio de serem pais,  por parte de homens e mulheres que não possuem um parceiro amoroso.
Schettini (1998) acrescenta ainda a tentativa de salvar um casamento, o desejo de ter companhia na velhice; o medo da solidão; o preenchimento de um vazio existencial, a possibilidade de escolher o sexo da criança.
Normalmente as representações que a maioria das pessoas elabora acerca da família, se fundamentam nos laços consanguíneos, o que possivelmente aumenta a possibilidade do filho adotivo e pais ocuparem um espaço de exclusão, como Woodward (2000) afirma, relatando que essa “diferença pode ser construída negativamente por meio da exclusão ou da marginalização daquelas pessoas que são definidas como "outros" ou "forasteiros" (p.50).
Todos esses aspectos influenciarão na dinâmica psíquica dessa nova configuração familiar, e, portanto, a importância de situar a experiência da adoção como um processo de individuação, definido por Jung (1985) como “tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir “individuação” como  “tornar-se si-mesmo” ou “o realizar-se do si-mesmo” (p.49)”.
...o bebê, por exemplo, chega ao mundo preparado para desempenhar seu papel ao constelar adequadas atitudes e condutas maternais na pessoa que cuida dele, arrulhando, sorrindo, mamando e, de um modo geral, tornando-se uma criatura adorável. Ao mesmo tempo (se tudo correr bem) a mãe está preparada para assumir o papel de alimentar e criar o seu bebê. O par mãe-bebê descreve um padrão arquetípico de fantasia humana e de ação recíproca interpessoal que é primordial e tem importante valor de sobrevivência. (STEIN, 2005, p. 154).
Para cada etapa da vida existem tais constelações de instinto e arquétipo, as quais resultam em padrões de comportamento, sentimento e pensamento.
A forma de vivenciar essa maternidade/paternidade adotante dar-se-á de acordo com as singularidades e individualidades do casal o que possibilitará um avanço no processo de individuação, se olhado sob o aspecto de uma ampliação de consciência, incluindo a devida elaboração e integração da sombra.
Assumir a paternidade/maternidade implica em responsabilizar-se pelo desenvolvimento de um indivíduo, numa sequência de trocas que pode acarretar em transformações numa série de áreas da vida sejam elas materiais, emocionais e espirituais que possivelmente não foram cogitadas.  Com relação a essas transformações Jung (1986)constata que:
... por via de regra, as reações mais fortes sobre as crianças não provém do estado consciente dos pais, mas de seu fundo inconsciente. Para toda a pessoa de responsabilidade moral, que ao mesmo tempo é pai ou mãe, representa este fato um problema de certo modo amedrontador... Sobrevém a qualquer pessoa um sentimento de extrema incerteza moral, quando se começa a refletir seriamente sobre o fato da existência de atuações inconscientes. Como então se poderá proteger as crianças contra os efeitos provenientes de si próprio, quando falha tanto a vontade consciente como o esforço consciente?...Em geral se acentua muito pouco quão importante é para a criança a vida que os pais levam, pois o que atua sobre a criança são os fatos e não as palavras. Por isso deverão os pais estar sempre conscientes de que eles próprios, em determinados casos, constituem a fonte primária e principal para as neuroses de seus filhos. (p.45-46)
Nesse sentido, o processo de desenvolvimento psicológico, a tentativa de tornar-se uma personalidade unificada, mas também única, um indivíduo, uma pessoa indivisa e integrada, unindo aspectos conscientes e inconscientes da personalidade, é de extrema importância para integrar a adoção no processo de individuação.
O presente artigo intenciona articular escritos publicados sobre adoção, sombra e processo de individuação, visando suscitar reflexões acerca do tema em todas as pessoas que se interessam em compreender de que forma a adoção pode emergir conscientemente elaborada a partir da integração da sombra, o que influenciará no processo de individuação dos pais adotantes, dentro da perspectiva analítica, bem como analisar os motivos que influenciaram na escolha pela adoção, refletir sobre a transição para a maternidade e paternidade no processo de adoção e estudar as mudanças sociais e psíquicas observadas nos pais adotantes decorrentes da adoção tendo como viés os conceitos de sombra e processo de individuação, além de trazer contribuições no sentido de auxiliar familiares e profissionais envolvidos com a adoção.
Pretende-se a partir da fundamentação analítica, contribuir a respeito dessas reflexões, revelando inclusive a carência de artigos relacionados e a necessidade dos profissionais dessa abordagem em produzir escritos que tratem do tema em questão.
Este trabalho está estruturado da seguinte forma: a primeira parte abarca a revisão de literatura, na qual houve um aprofundamento do tema abordado, enfocando a conceituação e historicidade da adoção, os principais conceitos da psicologia analítica enfocando a sombra na família e como a adoção pode constituir-se num processo de individuação. A segunda parte aborda o método, onde se delineou a pesquisa, o contexto, os participantes, além do plano de coleta e análise dos dados. Na terceira parte serão apresentados e discutidos os dados coletados em entrevista para em seguida realizar a conclusão do trabalho.

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