A Adoção - Por Jadete Calisto

Psicoterapeuta de Casais e Famílias

Segundo o Novo Dicionário Ilustrado da Língua Portuguesa, a palavra adotar, tem o significado de escolher voluntariamente, aceitar, tomar, assumir, receber como filho.
Entretanto a palavra adotar é mais ampla. D’Andrea (2012), Psicoterapeuta Italiano, salienta que “o ato de adotar uma criança significa criar uma continuidade entre passado e presente, integrar as histórias do passado da criança com as do presente, aceitar essa maneira diferente de construir uma família “
Ao serem adotadas, as crianças, sentem medo de não serem aceitas na sua legitimidade, com suas histórias de vida, seu sofrimento, seu nome, a cor de sua pele, seu cabelo, seu jeito de ser, etc.
Além disto, quando a historia de vida pregressa não é levada em conta, não é falada, elas sentem como se uma parte de si não fora aceita ou que uma parte de si está morta.
Quando as crianças ou os adolescentes vão para os abrigos, ao deixarem suas famílias de origem, ficam confusas, não sabendo o que aconteceu, se irão voltar para casa ou não, geralmente este fato acontece com um corte abrupto de vínculos familiares.
Muitas vezes a única coisa que sobrou, foram as lembranças da casa onde elas viveram e que continuam presentes dentro delas.
Se estas crianças ou adolescentes tiveram momentos de tristeza em suas famílias de origem, possivelmente tiveram também tempo de alegrias e cumplicidade com estes pais e irmãos. E o que aconteceu, onde ficaram todas as pessoas com as quais conviveram, sua casa, seus pertences, a escola, professores, colegas de escola, sua rotina, a comida que a mãe fazia e tudo o que fez parte da vida da crianças até então?
Quando estão em abrigos e são adotadas, acontece o mesmo processo, porque possivelmente fizeram vínculos com outras crianças e ou adolescentes dentro do abrigo e também com alguns funcionários.
As rupturas de vínculos tanto da família de origem, quanto quando saem do abrigo, provocam um sofrimento muito grande para a criança ou para o adolescente institucionalizado pois normalmente estes cortes são abruptos.
Quando são adotadas,os vínculos demoram um tempo para serem estabelecidos é preciso que os pais adotivos tenham muita paciência, porque a criança ou o adolescente precisa confiar e ter a certeza de que será aceita, compreendida e não será novamente abandonada.
Outro ponto é a que a criança institucionalizada perdeu a referencia de ser filho e pertencer a uma família. Não sabe qual o seu lugar na hierarquia da família. Na maior parte de sua vida ela precisou defender-se sozinha, não tinha ninguém por ela, então, muitas vezes criam uma hiperdefesa, isto é, respondem de forma agressiva quando sente-se ameaçada.

Aprender a ser filho, aprender a obedecer a uma hierarquia na família, aprender a receber cuidados, aprender a receber afeto, aprender a pertencer a uma família e a formar novos vínculos é algo que demora um tempo, não é do dia para a noite, pois são crianças ou adolescentes que via de regra perderam a confiança nos adultos que “cuidaram” dela até então.
Outro ponto é que muitas crianças acolhidas, apesar de precisar intensamente de contato físico, sentem muita dificuldade em aceitar um abraço um beijo, um afago, porque não sabem muitas vezes o significado destes atos, não sabem diferenciar entre carinho seguro e agressão.
Quando as famílias que adotam não compreendem estes aspectos e não levam em conta estas questões e as referencias entre passado e presente, as adoções não se realizam de forma satisfatória e inconscientemente ou não, as crianças não se sentem compreendidas, e esta pode ser uma das causas das relações começarem a se complicar.
Por este motivo, D’Andrea salienta a importância da continuidade da historia entre passado e presente.
Os pais adotivos devem estar atentos e se comprometer a manter viva a memória da historia de vida passada da criança que faz parte da identidade da mesma.
Os pais adotivos devem conversar com ela sobre sua história de vida, tudo o que aconteceu; contudo é preciso saber a hora de conversar, o que conversar e como conversar, não é preciso ter pressa , é importante esperar o tempo da criança...
Assim como a criança tem uma historia, a família que adota tem a sua história também, portanto é preciso que os pais adotivos, com o tempo, contem para a criança sua historia de vida, suas tristezas pela infertilidade e o quanto estavam esperando por ela.
Filhos adotivos ou biológicos tem uma história que antecede o seu nascimento. Faz parte do desenvolvimento psicológico da criança se perguntar sobre sua origem. Como eu vim ao mundo? Será que sou adotada? Será que faço parte mesmo desta família? Será que os meus pais me amam? Estas são perguntas que permeiam os pensamentos de qualquer criança. Na cabecinha de toda criança acolhida está sempre presente a questão: - “porque meus pais me abandonaram,eles não gostavam de mim?”
Vale a pena salientar, que o processo de adoção, exige grandes mudanças e aprendizado, tanto da família quanto da criança e é vivido por momentos de alegria, mas também envolve sofrimento de ambas as partes, pois é permeado de dúvidas, angústias, ansiedade entre outros sentimentos.
Adotar não compreende apenas aumentar o tamanho da casa, arrumar o espaço físico. Adotar vai muito além disso, compreende o espaço emocional de quem adota, bem como da família extensa, pois muitas vezes a família extensa, ama ou aceita, apenas seu semelhante, aquele que tem o seu sangue, seu sobrenome ou que tem traços fisionômicos parecidos com o da família.

O ato de adotar é semelhante ao namoro, na verdade é um encontro de almas, é o encontro dos olhares.