Piangers Adotivo

Meu filho foi um susto. Meu filho não foi planejado. Meu filho foi uma surpresa. A gente não estava tentando. Meu filho foi um acidente. Sem dúvida, o melhor acidente que pode acontecer a alguém. Você, que acidentalmente virou pai: você é um sortudo. Não é acidente. É uma sorte danada.
Existem casais que estão tentando engravidar há meses. Casais que dariam tudo por um acidente. Eles já tentaram no mês certo, todas as noite, baixaram aplicativos, consultaram médicos. Fizeram testes, tentaram de novo. Cada atraso era uma esperança. Fizeram mais testes. Calcularam se uma inseminação cabe no orçamento. Choraram juntos. Rezaram por um acidente.
Então, eles decidiram adotar. Uma adoção não é um acidente. É uma escolha. O pai que adota amou demais. Ama porque foi sofrido. Ama porque foi difícil demais. E agora a criança chegou. E não foi acidente, foi muito amor.
Existem pais biológicos e pais adotivos. E todos os pais biológicos que decidiram participar da criação dos seus filhos biológicos são também pais adotivos. Todos os dias decido adotar as minhas filhas, decido que vou ser um pai presente. Há pais biológicos que decidem abandonar, mas todo pai adotivo decidiu participar. Porque foi sofrido, e difícil, e demorado. Porque não foi acidente.
Aí está o segredo que todo pai deveria saber: ter um filho é difícil e terrivelmente cansativo. E porque é tão difícil, é maravilhoso. É a nossa obra-prima. E obras-primas são trabalhosas e levam anos pra ficar prontas. E a gente se apaixona por elas.
Porque é trabalhoso é que nos emocionamos quando a obra-prima fica bonita. Porque é trabalhoso é que nos emocionamos quando a nossa obra-prima diz um “com licença” ou um “obrigado”. Quando a nossa obra-prima se forma na escola, quando passa no vestibular, quando faz uma carreira brilhante. É a nossa obra-prima. Foi trabalho e noite em claro e choro e exames médicos e fila de espera e atraso e desesperança. Foi briga e discussão e castigo e abraço. Foi profundamente complicado e terrivelmente desafiador.
Não foi acidente. Nenhuma obra-prima é acidental. É amor demais.

Por: Marcos Piangers